07 Abril 2008

Eu sou a falta e, por isso mesmo, às vezes o excesso.

Quando a falta se faz presente tudo aquilo que a envolve se torna mais longo.
Hoje disponho de todas as respostas, mesmo para as perguntas que ainda não foram feitas. As minhas respostas para as minhas perguntas. A minha falta de habilidade em me manter próxima àquilo que é vivo. A minha insistência em permanecer distante. O cuidado que sempre me falta. Principalmente ele. Eu nunca soube cuidar. Nunca aprendi. Nunca. Ainda hoje - por defesa, por sobrevivência ou por mera covardia - prefiro manter um não relacionamento com o mundo. A minha relação maior ainda se dá com objetos e seres inanimados, porque o que me falta no cuidado excede na imaginação. Nunca soube cuidar. E em todas as oportunidades que busquei ir contra isso, cedo ou tarde, mais cedo que tarde pra ser específica, eu fui levada pro lado oposto aquele que gostaria de estar. As vezes que mais peco e mais perco é quando tento ir pra onde não sei. Eu definitivamente não sei cuidar. Coelho, bezerro, pinto, cachorro, peixe, árvore, amigo, ex-namorado. Tudo. Nada está imune. Ou eu não alimentei, ou eu alimentei demais, ou deixei a porta aberta, ou tranquei e esqueci as chaves, ou tive medo, ou coloquei o cuidado nas mão de outro que não soube cuidar também, ou, como na maioria das vezes, fugi da responsabilidade de cuidar. O fato é que eu não sei explicar e a coisa toda é simples apesar das inúmeras implicações negativas que traz.
Hoje percebo, depois de toda tentativa (incompetente) de entrega, que sou só. E não me refiro aqui a pressupostos existencialistas. Solidão é condição humana, mas não é a essa solidão compartilhada que me refiro. Hoje percebo - não feliz em perceber - que sou só. Porque pra mim ainda é difícil dividir, sempre acabo acreditando que preciso ME dividir, ainda é difícil fazer concessões. E qualquer relação requer isso. Cuidado também. E cuidado requer jeito, requer constancia, requer disposição, requer trato constante. O meu desleixo é sempre maior. Eu não sei ser constante. Eu sou a falta e, por isso mesmo, às vezes o excesso. E o excesso de cuidado também traz efeitos colaterais.
Cada um constrói sua própria história. A minha foi escrita assim. Eu sempre fui sozinha. Na infância eu era a criança que se escondia no vão da janela pra brincar sozinha com caixinhas de fósforo. E hoje continuo me escondendo. Escondendo-me atrás disso e de outros tantos motivos - alguns até com explicação psicológica bastante plausível - por defesa, por covardia, por comodidade, por descuido. E já que um fato acrescenta outro com clareza, é valido ressaltar o seguinte: eu também não sei me cuidar. E uma coisa está intimamente ligada a outra. Se não sei me cuidar ainda não consigo compreender e talvez nem perceber a falta que isso faz no outro.

Preciso não ser só minha. Preciso aprender. Preciso de um animal de estimação. Preciso plantar uma árvore, preciso cuidar...e depois... quem sabe...